Cada escala é um lugar real, uma língua real, e um fio que a liga a Portugal — uma palavra, um entreposto, uma dança. Nada é inventado, e é ela quem conta.
O fio, e é verdadeiro: Portugal e o Punjab dizem a mesma palavra para o chá
Em português diz-se chá. Em punjabi, chāh. Não é uma semelhança de som: é a mesma palavra, chegada pela mesma rota.
Por Macau — a porta portuguesa
- Portugaischá
- Pendjabichāh
- Hindichāy
- Persanchāy
- Turcçay
- Russechaï
- Arabeshāy
- Swahilichai
茶O mesmo carácter
Por Amoy — a porta holandesa
- Néerlandaisthee
- Anglaistea
- Françaisthé
- Espagnolté
- AllemandTee
- Italientè
- Danoiste
- Suédoiste
O português é a única grande língua da Europa Ocidental a dizer chá — porque Portugal comprava o seu chá em Macau, quando os holandeses, e atrás deles a Inglaterra, a França e a Espanha, o compravam em Amoy — hoje Xiamen, na China — mais a norte, onde o carácter se pronunciava de outra maneira.
O itinerário
Dez escalas, escolhidas por uma só regra: existe um elo histórico real entre esse lugar e Portugal, e esse elo ainda se ouve na música de hoje.
Pendjab
Índia
canção pronta
ਪੰਜਾਬੀ · pendjabi
O chá diz-se chāh em punjabi e chá em português. Mesmo carácter chinês, mesma rota: a de Macau.
«A história do chá da feira» — uma canção de mercado, cantada na língua do lugar.
Pousei as patas numa banca, entre três copos de chá a ferver. Diziam chāh. Julguei ouvir a minha avó em Lisboa.
🎵 O instrumento daqui
कोंकणी · konkani
Portuguesa de 1510 a 1961: quatro séculos e meio, mais tempo do que muitas províncias da Europa.
O mando: uma canção de amor em concani, em compasso ternário, prima direita do fado.
Aqui as igrejas têm nomes que sei ler, e as pessoas cantam uma tristeza que conheço. Não precisei que me traduzissem.
🎵 O instrumento daqui
廣東話 · cantonais, patuá
O entreposto de onde o chá — e o seu nome — partiram para Lisboa.
O patuá, crioulo português de Macau, hoje falado por um punhado de pessoas.
Foi daqui que a palavra partiu. Uma caixa de folhas, um barco, e seis meses depois Lisboa inteira dizia chá.
kristang
Um crioulo português ainda falado cinco séculos depois da passagem das caravelas.
O branyo, que se dança como um corridinho do Algarve — do outro lado do mundo.
Um senhor idoso falou comigo e percebi tudo. Ele não sabia que falava quase português. A família dele também não, há quinhentos anos.
සිංහල · cingalais
O contacto português do século XVI deixou uma comunidade, apelidos, e uma música.
O baila: nascido desse encontro, e ainda o que se põe no fim dos casamentos.
No fim do casamento, quando toda a gente estava cansada, puseram o baila. Ninguém se sentou.
tétum · português
O português é aí língua oficial, a quinze mil quilómetros de Lisboa.
O fim da estrada: a última escala antes de a andorinha voltar para norte.
O fim do mundo fala a minha língua. Fiz quinze mil quilómetros para ouvir «bom dia».
日本語 · japonais
Os portugueses aí deixaram o pão e a tempura — palavras que ainda se comem.
Uma língua que quase nada pediu emprestado, e que guardou mesmo assim estas palavras.
Ofereceram-me pão. Dizem pan. E um frito leve a que chamam tempura. Não tive de explicar nada.
português · xichangana
Na própria rota da andorinha: é na África austral que ela passa o inverno.
A marrabenta, nascida nos subúrbios, guitarra improvisada e ancas que não pedem licença.
É aqui que passo o inverno, desde sempre. Não é uma escala para mim: é a minha segunda casa.
kriolu
Dez ilhas de língua portuguesa plantadas no meio do Atlântico, na rota das aves.
A morna — a saudade que atravessou o oceano e nunca voltou realmente.
Dez ilhas no meio da água, e uma música que fala de partir. Sabem bem o que é estar sempre entre dois lugares.
🎵 O instrumento daqui
português do Brasil
O outro sentido da viagem: a língua é a mesma, o sotaque apanhou sol.
O regresso ao ninho — em português, mas já não bem o da partida.
A mesma língua, outro sol. Cantam mais alto do que em casa, e acho que têm razão.
🎵 O instrumento daqui
1 escala em 10 já tem a sua canção. As outras estão a ser escritas — a página vai-se enchendo.
A primeira escala sai a 2 de outubro
Mele Di Chah Wali Gall — FOGO E LUA. Uma canção de feira de aldeia, em punjabi: um rapaz chega ao mercado com o turbante de lado, a barraca do chá anima-se, os olhares cruzam-se. A palavra que dá o título à canção, chāh, é a mesma que o nosso chá.
Disponível em todas as plataformas na sexta-feira, 2 de outubro de 2026 — e para ouvir aqui nesse mesmo dia. EAN 4071624146128
Perguntas que nos fazem
Porque se diz «chá» em português e «thé» em francês?
Porque as duas palavras não chegaram pelo mesmo porto. O português foi buscar a sua a Macau, onde o carácter 茶 se pronuncia cha; os holandeses, que abasteceram o resto da Europa Ocidental, compravam em Amoy, onde o mesmo carácter se diz tê. Daí vêm thé, tea, té, Tee e tè.
O português é a única língua da Europa Ocidental a dizer «chá»?
Sim, entre as grandes línguas da Europa Ocidental. O português partilha a sua palavra com o persa, o hindi, o punjabi, o turco, o russo, o árabe e o suaíli — todos do lado da rota terrestre e de Macau — enquanto os seus vizinhos imediatos dizem todos thé, tea, té ou Tee.
Que territórios da Ásia foram portugueses?
Goa, Damão e Diu na Índia até 1961 — Goa desde 1510, ou seja quatro séculos e meio. Macau até 1999. Malaca de 1511 a 1641. Timor-Leste até 1975, onde o português continua língua oficial. Restam crioulos, apelidos, receitas e músicas.
Onde é que ainda se fala um crioulo português hoje?
Em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, mas também muito mais longe: o kristang em Malaca, na Malásia, o patuá em Macau, e vestígios no Sri Lanka. Estas línguas nasceram do contacto, não da conquista — e várias já só se seguram por algumas centenas de falantes.
Para onde vão as andorinhas no inverno?
As andorinhas-das-chaminés da Europa passam o inverno na África subsariana; as da Ásia Central descem até ao subcontinente indiano. Percorrem vários milhares de quilómetros e voltam ao mesmo ninho, muitas vezes debaixo do mesmo telhado do ano anterior.
Porquê uma andorinha
Porque a viagem não é uma metáfora. A andorinha-das-chaminés deixa a Europa todos os outonos rumo à África austral; as da Ásia descem até ao subcontinente indiano. Percorrem milhares de quilómetros e voltam ao mesmo ninho, debaixo do mesmo telhado.
É exatamente o que fazem as famílias que este site acompanha desde o início: partem, voltam, guardam o elo. A Palmi apenas traz as canções da viagem.
Conhece uma escala que nos falta?
Um lugar, uma língua, uma música que guarde um traço português: diga-nos, a andorinha vai lá ver.
📍 Dizer-nos
Página da rede OnBouge — as rotas que ainda ligam, e o que se traz da viagem.